quinta-feira, junho 16, 2016

Pássaro de Fogo



Foi num sonho que vi

Medonha fera
Terrível Quimera
Que tudo engolia
O povo gritava
A todo momento,
Em grande Agonia

Sangue, dor e sofrimento
Não há Esperança
Contra tamanha vingança

Mas eis que surge no Horizonte
Pássaro reluzente
De brilhos dourados
E tons avermelhados.

Foi num sonho que vi

Em passada era
A Terrível Quimera
Em luta sangrenta
De morte ferira
O grande Pássaro de Fogo.

Mas Fênix ressurge das Cinzas
Novamente, a fera enfrenta
Em batalha cruenta
Dentes e Garras
Se atracam.
O Vermelho Sangue
Inunda o campo.

A cruel fera agora jaz
Ferida de morte.

E em vôo elegante
O pássaro triunfante
Os céus alcança
Anunciando nova Aliança.

Destruída a Quimera
Inciará nova era.

Foi num sonho que vi

Alvaro Dezembro de 2005

sábado, maio 28, 2016

Proteção


Diante da tempestade
Do alto do edifício
O guarda chuva aberto
Protege a Nação

Alvaro 28 de maio de 2016

sábado, abril 30, 2016

Lobo da Estepe



A rua de paralepipedos molhados pela chuva reflete a luz do luminoso. 
As letras ao contrário revelam que haverá um espetáculo. 
Será no Teatro Mágico. O convite é só para os raros e só para os loucos...
Mas... quem será louco suficente para enxergar dentro de si mesmo?
E um Lobo segue solitário pelo meio da rua...


Alvaro 14/11/2004
Poema inspirado no livro Lobo da Estepe, de Herman Hesse 
e na Música Sound of Silence de Simon e Garfunkel 
imagem: rua de Lisboa, capturada na Web,sem indicação de autoria e alterada no Paint.net



quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Politicamente Correto



O judeu esperava o policial que iria prendê-lo. É lógico que nem judeu nem policial seriam as palavras empregadas. Nem o verbo "prender". Mas para captar o que estaria acontecendo foi necessário que eu usasse a língua antiga, anterior a Reforma. Não se preocupe se não entender algumas palavras. A Universidade está preparando um dicionário que em breve estará sendo vendido a preços populares. Espero que sejam sinais de um novo tempo.

Aliás a exigência do Judeu para ser preso foi que o policial que viesse fosse culto o suficiente para usar a língua antiga. A Agência de Preservação das Minorias teve um trabalho muito grande para achar alguém, mas, por sorte, um dos agentes especiais tinha curso de história.

A campainha tocou. Do outro lado da porta o Judeu viu um homem de cerca de trinta anos, com um uniforme cinza. Cor irritantemente neutra. Convidou-o entrar e sentar-se na sala. O Agente assentiu com a cabeça e sentou-se numa das poltronas do aposento e o Judeu escolheu a outra, em frente. Ele esperou ao agente examinar o ambiente a sua volta antes de começar a conversar.

Os olhos do agente percorreram uma a uma das peças ali. Quadros, armas antiga, uniformes de soldados  e oficiais, objetos de uma época que a Humanidade queria esquecer. O silêncio durou cerca de  dois minutos, quebrado pela pergunta do agente, em bom vernáculo da língua antiga:

-- Por que objetos Nazistas? Que prazer mórbido teria você um Judeu em colecionar objetos símbolos de sua opressão?




O Judeu sorriu e respondeu:

-- São apenas objetos. E eu os colecionei apenas para provar isso. Não para mim nem para os meu pares, mas para todos. Sou um historiador como você. Apaixonado pelo passado e de reconstruí-lo para que as gerações futuras entendessem que tinham uma origem e teriam um futuro. 

--Mas onde encaixa esta coleção? Você sabe que apenas mencionar qualquer referência aos nazista é proibida. O que se dirá de uma coleção desta?

-- Eu sei. E sei também que botar o dedo em qualquer ferida aberta contra uma minoria é crime. E muitas vezes no meu trabalho esbarrei em várias delas, algumas abertas pelo meu próprio povo. No início me deram liberdade para pesquisar desde que meus trabalhos não saíssem do ambiente da Universidade. Mas depois, primeiro era difícil achar fontes de pesquisa adequadas. Volumes significativos sumiam. Sumiam também qualquer menção a eles. Os bibliotecários olham espantados, dizendo, "nunca tivemos este exemplar". De Mein Kampf até O Senhor do Anéis. Depois, meus próprios trabalhos sumiram. Por fim, meu registro foi cassado. 

-- Senhor, não há mais lugar para historiadores. Somos felizes sem diferenças de espécie alguma. E historiadores nos trazem lembranças de um tempo que não volta mais.

-- Percebi isto. Você parece estar conformado com sua situação. Um historiador que virou policial. Mas voltando a minhas razões, escolhi o Nazismo justamente pela contradição. Um judeu colecionando objetos nazistas... Ironia pura. Para caracterizar o ridículo da minha prisão (que vocês insistem em chamar de reeducação). 

-- Meu senhor, seriam pra seu próprio bem e para o bem da sociedade. Não queremos mais nenhuma discriminação. Nenhum preconceito.

-- E você acha que eu quero? Não creio que seja eficaz simplesmente negar a existência de diferenças e de uma tal maneira que chegaram a queimar livros em praça pública! Isso me levou aos nazistas também. O que era diferente estava fora. Nos tornamos iguais. Mas não entre nós. Iguais aos nazistas!




O rosto de pedra do policial deu mostras de perturbação. As palavras do Judeu acordaram o historiador adormecido. Não foram suficientes para ele relaxar o cumprimento de seu dever. O Judeu foi levado para um instituição de reeducação. Era como chamavam o presídio. 

Alguns dias depois o policial pediu exoneração. Foi o inicio deste movimento.

Eu era aquele policial.


Alvaro A. L. Domingues
Publicado originalmente no livro Sombras e Sonhos, da Balão Editorial

Nota: Não defendo ideologias totalitárias nem qualquer tipo de discriminação. Apenas acredito que não devemos varrer a história para baixo do tapete.


sábado, junho 27, 2015

Coração de boneca


Daniela estava deitada, olhando a bailarina de sua caixa de música. A melodia era uma valsa de Strauss, que tocava em todos os salões. Mas valsa pressupunha um par. Masculino. Uma bailarina solitária não poderia dançar uma valsa. Dançara a última com Roberto, um dos muitos pretendentes à sua mão. Ele tinha sido o mais persistente, a ponto dela ter que dispensá-lo com dureza. Contaram que ele passara a beber. Exagero. Ele só tomara um pileque no dia.

E se ela fosse o par da bailarina? Afastou o pensamento. Tolo devaneio. A bailarina era uma diminuta figura de porcelana e ela era uma mulher. Gostava de sê-lo. Mas todos a olhariam torto se ela dançasse com outra mulher. Aliás, quem das moças gostaria de dançar com ela?

Voltou a olhar a bailarina. Traços delicados como o seu. Mas dura e fria. O único movimento que fazia era um rodopio. Fechou com raiva a caixa de música. Levantou-se e vestiu-se com suas melhores roupas. O pai gostava de vê-la elegante e achava que ela devia ficar longe de sua oficina. Ele era um grande fabricante de brinquedos, tão hábil que era apelidado de Gepeto. Ela seria sua Pinóquia. Sem um nariz enorme ou outra coisa que crescesse. Riu de seu pensamento obsceno.

Ela despiu-se novamente. Hoje, nada de sedas, corseletes e saias volumosas. Vestiu sua roupa de trabalho. Um macacão, com bolsos amplos para guardar ferramentas e peças. Desceria mais uma vez à oficina do pai. Ele ficaria contente em vê-la, apesar de achar que lugar de moças não era numa oficina. Diferente do Gepeto, ele não era um marceneiro, mas um hábil relojoeiro e criava brinquedos de todos os tamanhos, com diversos mecanismos de movimento. E, similarmente ao Gepeto, estava fazendo bonecos para um circo de marionetes. Marionetes sem cordão, como Pinóquio, mas segundo ele, sem alma, apesar de terem alguma limitada inteligência. Os números de canto e dança poderiam ser pré-gravados em cartões perfurados e introduzidos num compartimento nas costas do boneco.



 O pai primeiro sorriu, depois mostrou uma carranca fingida, de reprovação:

Querida, você não devia vir até aqui!

Ela sorriu e respondeu:

Paizinho, você sabe que adoro aqui, mexer com as peças, ouvir os mecanismos funcionando e o cheiro de graxa.

Ele sorriu e passou um mecanismo de corda para a mão da filha e disse:

Tente achar o que o está travando. Você sempre foi boa nisso. Vê o que meus olhos cansados não enxergam.

Ela olhou e identificou rapidamente o problema, devolveu a peça e disse:

É uma rebarba nesta engrenagem. Quando este dente chega em determinado ponto, o mecanismo trava.

Ele sorriu e disse:

Pena que não podemos substituir engrenagens que travam na nossa vida. Qual é a sua engrenagem?

Ela ficou paralisada. Fora pega de surpresa.

O pai recolheu o mecanismo de sua mão e a abraçou com ternura. Afastou-a um pouco e olhou em seus olhos:

Minha filha, você não desce aqui a não ser quando está com problemas.

Ela fugiu o olhar, tentando esconder a lágrima que brotava. O relojoeiro sorriu e disse:

A solidão é muito amarga, não é, minha pequena Daniela? Eu me acostumei com ela depois que sua mãe morreu. As engrenagens sempre foram um alimento para minha alma e me dedicar a elas fez com que eu esquecesse a tragédia. Mas sua solidão é diferente.

Como pode saber? Você é um homem! Que pode saber dos sentimentos de uma mulher?

Minha filha, eu sei mais do que imagina. Sei que você se mantém afastada dos rapazes que a galanteiam, como se tivesse medo deles. E sei que maioria deles não vale um centavo. Mas mantém-se afastada das moças também. Acompanhei algumas amizades de você com algumas garotas que pareciam unha e carne que de repente se desfizeram a ponto de sequer se olharem.

Daniela ficou rubra. Percebeu o olhar tristonho por trás do sorriso do pai:

Posso lhe fazer uma pergunta? Não vai ficar brava comigo?

Ela consentiu com um aceno de cabeça:

Essas moças se afastaram de você porque declarou seu amor por elas?

Sim! – disse ela agora sob um choro intenso. E agora não consigo nem chegar perto de uma! Isso se espalhou por toda a vizinhança. Por que você não teve um filho?

Eu gosto de você, Daniela, como é. Não posso lhe transformar em homem, nem com ajuda de mil fadas azuis, mas posso ajudá-la de alguma forma.

Falando isso, retirou o lenço de cima de uma peça, revelando uma bailarina em tamanho real.




Daniela olhou para o objeto com espanto. Aproximou-se e tocou a face da boneca. O tato lembrava o toque de pele, embora estivesse fria. Virou-se pra o pai e disse:

Ela é linda, mas é uma máquina! Pai! Como pode achar que eu me contentaria com um simulacro de gente?

Ela virou as costas e, chorando, subiu correndo as escadas.

O mestre relojoeiro cobriu novamente a boneca e voltou-se novamente para a bancada, continuando o trabalho, refúgio de sua alma atormentada.

Daniela chorou longamente em seu quarto. Não desceu para almoçar ou jantar, apesar da insistência do pai a quem repelia com gritos e impropérios.

Teve dificuldades para dormir. Vinha em sua mente seu pai e seu jeito carinhoso de falar com ela e sua tentativa de resolver o problema dentro do universo que conhecia. Sabia que as intenções dele eram as melhores possíveis, dentro do universo que conhecia: engrenagens, cordas e parafusos. Lembrava também do rosto delicado da boneca e da textura de sua pele. Se ela fosse uma mulher de verdade, seria uma tentação para Daniela. Mas não era! Aos poucos o conflito interno foi cedendo à curiosidade e ela levantou-se da cama, vestiu o robe, e desceu até a oficina.

Descobriu a boneca e ficou olhando para ela. Sem corda realmente não passava de um objeto inanimado. Uma pergunta passou por sua cabeça: quão detalhista teria sido seu pai? A pele fora realmente um trabalho de artista. E os detalhes anatômicos? Despiu a boneca. Os seios estavam perfeitos. Tocou-os de leve. A pele macia e lisa lhe deu prazer ser tocada. Retirou rapidamente a mão, como se fosse queimar. Não queria se permitir ter prazer ante aquela entidade artificial. E os outros detalhes? Um homem seria capaz de captar todas as sutilezas de uma vagina? Pelo que conhecia dos homens, poucos sabiam realmente acariciar uma como se devia. E pensar em seu pai como um desses homens lhe deu certo desconforto. Homens pensam que suas mães são assexuadas e as meninas pensam o mesmo sobre seus pais. Bom. Seu pai era homem e se ele tinha que fazer sexo, que fosse com sensibilidade. Criou coragem e tocou a vulva da boneca.  Macia, levemente úmida, Daniela sentiu como se estivesse tocando a si mesma. A boneca abriu os olhos. Daniela se assustou. Seu pai teria dado corda? A boneca sorriu e a moça afastou-se como se estivesse diante de um monstro.

Olá – disse a ginoide. – Você deve ser Daniela. Sou Linda, a seu dispor.

Levantou-se e fez uma mesura com gestos bem delicados. Daniela estava impressionada com o grau de detalhamento: movimentos naturais, fala modulada, um sorriso leve e gentil. Entretanto, disse:

Ainda assim é uma máquina.

A boneca olhou-a com ar interrogativo. Daniela ficou em silêncio observando aquela mulher perfeita, na aparência, nos movimentos e na voz. Seu pai realmente tinha sensibilidade. Provavelmente tinha tido várias amantes e todas muito especiais, o que de certa forma, contrastava com a imagem de homem puro que ela fazia dele. 

Beije-me – ordenou Daniela.

Linda chegou perto e tocou-lhe os lábios com os seus. Daniela gostou do toque e a boneca foi movimentando os lábios e introduzindo a língua em sua boca com muita delicadeza. A língua era igualmente perfeita. As poucas mulheres que beijara não tinham aquela delicadeza e aquele gosto. Estaria cedendo? Daniela empurrou a boneca para longe, derrubando-a no chão. Ela gritou:

Você me machucou!

Daniela respondeu brutamente:

Como posso machucá-la? Você não tem pele, só uma seda muito bem trabalhada, seus músculos devem ser cordas de piano e seu coração deve ser uma mola de relógio!

Sinto dor, sim! Seu pai me deu sensibilidade! Eu sou gente!

Linda começou a chorar. Que programa seria aquele? Tudo que Daniela sabia de mecanismos era que, por mais sofisticados que fossem, seguiam sempre um padrão. Seu pai conhecia tanto assim do comportamento humano a ponto de programar todas as reações daquela boneca?

Daniela!

Ela virou o rosto.  Era seu pai lhe chamando, aproximando-se lentamente.

Vejo que veio ver Linda. E então?

A moça olhou o homem e correu abraçá-lo. Em prantos, disse:

Oh papai! Muito obrigado pelo seu esforço! Mas...

Ela baixou os olhos. O pai concluiu:

– … é uma máquina. Eu entendo você, minha criança! Mas pense bem... O que somos nós para Deus? Apenas máquinas para o seu prazer.

Mas temos o livre arbítrio, não temos?

E quem disse que ela não tem? Eu criei essa máquina a partir do relógio astrológico. Seu coração é um relógio que calcula um mapa astral hipotético minuto a minuto, gerando um comportamento extremamente complexo.

Daniela pensou um pouco e perguntou:

Mesmo um relógio extremamente complexo é previsível e nós, mesmo para um astrólogo extremamente hábil, somos imprevisíveis.

Mas eu dei a ela o livre arbítrio! Do mesmo modo que acho que Deus fez conosco. Ele deve ter introduzido um elemento de instabilidade no nosso caráter. Então coloquei uma peça formada por uma lâmina bimetálica com dois metais de coeficiente de dilatação bem diferentes e que se flexiona conforme a temperatura ambiente, gerando variação no mecanismo que nem eu mesmo, com todos os cálculos que sou capaz de fazer, posso prever.

Aí estava o prazer do pai. Sentia-se um deus diante dos brinquedos que criava. Linda era sua obra prima, uma mulher artificial.

Pai, eu não entendo! Se ela é tão boa, por que não a tomou para si mesmo? O senhor está sem uma mulher há muito tempo!

Ele acariciou a cabeça de sua filha e disse:

Eu só não tenho uma mulher dentro desta casa. De qualquer forma, Linda é como se fosse minha filha, e eu não teria coragem de tocá-la como mulher.

Mas ela não seria minha irmã?

Sim e não. Como você se sente em relação a ela?

Ela ainda é um objeto para mim.

E se fosse uma pessoa? Seria sua irmã?

Não, porque não a vi crescer. Mas, e você, não nos vê como irmãs?

O meu objetivo, desde que soube que você não poderia se relacionar com homens, foi criar uma companheira para você. E quem quebra um tabu, pode quebrar dois. Então, permitirei que vocês duas se relacionem, mesmo sendo duas mulheres e sendo meio-irmãs.

Daniela olhou o pai e o abraçou com força. O homem sorriu e disse:

– Leve-a pra seu quarto. Vocês precisam se conhecer melhor. E talvez descobrir algo que precisa ser ajustado no programa de Linda. Consultei várias de minhas... Minhas... amigas para dar-lhe uma personalidade feminina. Na parte da sexualidade, eu deixei muita coisa para ser aprendida, já que sou homem e olho outra mulher como homem e não saberia dizer como uma mulher deseja outra mulher. Então, caprichei no programa de aprendizado.

Daniela beijou a testa do pai lhe agradeceu. Levou a boneca para o quarto, colocando-a sentada na cama. A relutância em tocá-la ainda estava presente. Tentou começar um diálogo, mas falava sem parar, como se quisesse que a boneca não lhe respondesse. Linda colocou o dedo indicador sobre os lábios de Daniela pedindo silêncio. A moça calou-se e respirou fundo. Olhou primeiro o rosto de Linda, depois o peito. O movimento respiratório da boneca era idêntico ao seu e a moça teve a impressão de ver um coração batendo.

Linda tirou o robe de Daniela com delicadeza. Os dedos eram leves, palma da mão suave. Beijou levemente seu pescoço, descendo aos poucos até seus seios. Mordiscou levemente o mamilo e Daniela respirou um pouco mais forte. Linda sorriu e beijou o outro seio, sugando-o levemente. A respiração das duas começou a entrar em sincronia, alternando o inspirar de uma como expiração de outra, num vaivém que prenunciava grandes prazeres.



A boneca continuou, beijando-lhe o ventre. Daniela estava com os olhos fechados sentindo cada toque de Linda, imaginando o que ela precisaria aprender. Quando ela tocou com seus lábios a sua parte mais íntima, a moça soube que quem tinha que aprender era ela.

Os dias que se seguiram foram para Linda se adaptar à sua própria existência e uma à outra. Daniela, ainda de vez em quando, tinha crises de raiva ao lembrar que Linda era um ser artificial. Mas essa impressão foi aos poucos sendo desfeita e esses momentos foram rareando.

Um dia, o pai disse a Daniela:

Está na hora de colocarmos esta moça na sociedade. Tem um baile que vai ocorrer esta semana e seria um bom momento de mostrá-la. Você a apresentará como sua prima.

Mas pai, teremos que dançar com rapazes!

Ora, querida, você sempre encarou a dança como uma atividade prazerosa e sempre soube manter os rapazes longe de avanços inconvenientes.

Mas e ela? Eu sei que não gosto de rapazes, mas ela nunca teve essa experiência.

Está com ciúmes? Isso é ótimo! Há algumas semanas você queria transformá-la em sucata! Mas, como em qualquer relacionamento, é um risco que terá que correr.

Mas, e o programa? Não dá pra dar uma reforçadinha?

Agora ela ser programável é importante? Não pretendo alterar uma vírgula na programação original, já que ela está funcionando perfeitamente. Eu escolhi um mapa astral em que a sinastria de vocês duas era muito harmônica, de modo que ela nasceu apaixonada por você. O risco vamos dizer que é baixo, mas existe e você terá que enfrentá-lo.

Linda, que estava em silêncio até então, se manifestou:

Daniela, eu amo você muito! Não é qualquer barbudinho que vai me levar embora!

A moça riu e disse:

E um imberbe?

Ele teria que ter cara de menina e vestir saia! Mas, senhor Gepeto, eu preciso de uma alteração no programa: eu não sei dançar!

Não me chame nem de senhor, nem de Gepeto. E eu não fiz o programa, por que eu não sei dançar também. Mas você tem um programa de aprendizado e Daniela pode ensiná-la. Ao dançar uma única vez, você dançará bem dali pra frente.

Linda, eu gostaria de fazer isso no próprio baile! Sempre fantasiei um dia estar dançando com outra mulher num baile! Desta vez teria uma desculpa fazê-lo!

* * *

A orquestra tocava uma valsa vienense. Outra de Strauss Jr. Daniela às vezes se perguntava por que não se tocavam outros autores ou outro gênero de música. Linda dava demonstração de ansiedade. Seria fruto de algum programa ou era uma característica própria da moça? Daniela sorriu. Hoje, mais do que nunca, isso pouco importava. Deixou rolar a primeira música e depois tomou Linda nos braços, como se fosse o cavalheiro. Como nada ainda tinha sido programado, Linda assumiu um jeito mecânico, mas logo conseguiu se flexibilizar e, em pouco tempo, as duas dançavam divinamente. Quando pararam, perceberam que estavam dançando sozinhas e os outros casais em sua volta olhando. Alguns olhares eram de desaprovação, outros de susto, outros de admiração. Um único olhar de raiva, de Roberto. Um rapaz quebrou o gelo, batendo palmas.


 O baile seguiu normalmente, as duas dançavam ora com um ora com outro rapaz e, de vez em quando, arriscavam mais uma provocação, dançando uma com a outra, trocando de papel durante dança. Com certeza sairiam mal faladas de lá. O pai, sentado em uma das mesas, dava olhares cúmplices para as duas.

As coisas iam bem, até que Linda, numa das danças com Daniela, disse em seu ouvido:

Precisamos ir embora. Minha corda está acabando. Acho que dançar acelerou o processo.

Pararam a dança e foram até a mesa do relojoeiro e informaram-lhe o fato. Os três saíram apressadamente, e quando estavam próximos à porta, Roberto, visivelmente embriagado, barrou-lhes a saída e gritou para Daniela:

Você! Trocou-me por uma mulher!

Dizendo isso puxou um revolver e apontou para a moça. Um tiro partiu. Linda rapidamente se pôs na frente de Daniela. Ela caiu no chão e foi socorrida pelo relojoeiro e, para sua própria admiração, o que manchava o vestido de Linda era...



… sangue! 

Alvaro Domingues -- 2013
Conto originalmente produzido para participar 
da antologia Les Enchantées
Imagens obtidas na Web sem referencia de autoria.

terça-feira, setembro 30, 2014

Como se fosse o beija flor e a orquídea



Ele olhava pra ela com uma mistura de sentimentos, enquanto ela se admirava nua num espelho de corpo inteiro, de vez em quando tocando seu corpo, sentindo a própria pele.

Após alguns minutos de auto idílio, ela voltou-se pra ele e perguntou:

– Eu consegui me fazer bonita e desejável pra você?

Ele sorriu e respondeu:

– Bobinha! Até parece que é a primeira vez que usa esta forma!

Ela se voltou para ele e, ajeitando de leve seus cabelos, disse tentando parecer séria:

– Todas as vezes é como se fosse a primeira. Não sou como você que tem a sempre a mesma forma.

Ele franziu a sobrancelha antes de retrucar:

– Eu não diria "sempre". Sutilmente vamos mudando de forma cada dia. E temo que chegará o momento em que eu não te atraia mais.

– Ah, o envelhecimento – disse ela ainda fingindo seriedade, tentando ocultar seu sorriso.

E, jogando-o novamente na cama, completou:

– Não se preocupe, viva apenas este momento.

Beijou-o e sentiu plenamente o prazer de sua boca. Precisa sentir toda intensidade de seus lábios, enquanto dedos dela percorriam seus cabelos. Seus lábios foram para seu pescoço onde mordeu levemente. Sentiu vontade de virar ao lendário vampiro, mas não o fez. Queria mais do que tudo ser apenas mulher. Como mulher podia sentir o prazer de estar com um homem. Não qualquer homem. Ele.

Seu homem ficou excitado e a abraçou com força. Os dedos dele percorreram aquele corpo moldado apenas para o seu prazer. Sentiu a pele dos seios com a ponta dos dedos. apertou-os levemente para sentir sua firmeza e os beijou, mordiscando levemente. Ela deu um gemido baixo e fechou os olhos.

Sentiu sua boca descendo pelo seu ventre até que ele encontrou o que buscava. Lambeu levemente o clitóris e sentiu o gosto dela, penetrando-a com a língua. Um momento perfeito.

Ela estava extasiada. Ser mulher era a melhor forma de sentir prazer. Animais estava presos ao cio, plantas ficavam distantes uma das outras e homens estavam muito centrados em seus próprios pênis. Ele, não. Mas não queira transformar-se nele, mas senti-lo plenamente.

Uma vez, mais uma vez e outra. Quantas ele aguentasse.

Agora ele tocava sua vulva levemente com o pênis, sem penetrar. Ele sabia que isso ia deixá-la louca de prazer, mesmo sem ser telepata como ela.

A penetração foi inicialmente suave e depois com violência, do jeito que ela gostava. Era como de repente tivesse se transformado num lobo no meio da relação, coisa que ela fizera uma vez quando transmutada em homem e transando com outra mulher. Mas ele não precisava realmente mudar. O lobo sempre fora ele desde o começo.

O gozo veio intenso. Ela gemeu de prazer, acompanhando-o.
Agora ele estava relaxado, calmo em silêncio, olhando-a enquanto acariciava seus cabelos.

– Conte-me sobre como as flores fazem amor – ele pediu.

Olhando para ele, ela respondeu:

– As flores fazem amor com os insetos, o vento e os beija flores. Sentem prazer intenso em se exibir. Mas são solitárias, nunca podendo amar diretamente umas com as outras.

– Você já foi flor?



– Sim é é uma delícia. Também já fui abelha e beija flor. Abelhas não pensam que o que estão fazendo é sexo. Beija flores sentem mais prazer.

– E eu, sou uma flor ou um beija flor?

– Querido, você não é nenhum deles. Você é o melhor homem que conheci e me tem por inteiro.

– Mas quando você vai embora, eu me sinto como uma flor que não vê sua companheira.

– Meu amor, você pode ser como um beija flor e buscar outras flores!

– Mas eu seria como aquele beija flor apaixonado.

Ela lembrou-se da experiência em que fora uma orquídea branca e um beija flor se encantara com ela e sempre voltara lhe procurar. O pássaro fez isso até o final de sua curta vida de beija-flor.

– Bobo! – ela respondeu fingindo zanga – Há muitas flores por aí que até gostariam desse beija flor.

Então ela olho-o com um ar triste. O rapaz percebeu seu ar preocupado e perguntou:

– Por que a tristeza?

– Como o beija flor um dia você morrerá. E nesse dia sentirei muito sua perda. Mas não é essa a causa de minha tristeza hoje.

– Qual é então?

– Estou em missão em seu planeta. Estamos resgatando aquilo que tínhamos antes de nos tornarmos excessivamente espirituais, quando abandonamos definitivamente nossos corpos. Descobrimos tarde demais o erro. E queremos reconstruir o que um dia fomos. Eu fui encarregada de descobrir o amor e o sexo. E um dia deverei voltar com tudo que aprendi.

– E se você não voltar, o que acontece?

– Não sei. Eles jamais lidaram com uma insubordinação antes. Talvez venham me buscar, talvez me destruam ou ainda não façam nada.

– E quando termina esse prazo?

– Amanhã.

Ele a abraçou, a beijou e disse:

– Hoje você é mulher e o dia ainda não acabou. Amanhã pensamos como enfrentá-los.

Fizeram amor uma vez e outras muitas. Depois ficaram na sacada do prédio esperando o sol nascer.

Alvaro Domingues
imagens: colhidas na internet sem referencia de autoria.



Licença Creative Commons
O trabalho Como o beija-flor e orquídea de Alvaro Domingues está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.